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Uma indesejada visita

29 Mar 2016 por Sylvia Mello Silva Baptista em Bem Estar

A vida é uma só, e os gregos antigos sabiam disso muito bem. Todo ser humano sabe, principalmente quando uma senhora muito conhecida e mal vista passa por perto de nós: a Morte. Se você teve um arrepio ao ler seu nome aqui é porque é humano (a), posso lhe assegurar. Ninguém gosta de pensar ou falar da morte, esta única certeza que temos na vida. Única! Aquilo que no final do século XIX e princípio e meio do século XX era um tabu, a sexualidade, e enchia o consultório do dr. Freud, o pai da psicanálise, foi se transformando em algo banal e corriqueiro nos dias atuais e cedendo lugar para um novo assunto proibido; quem tem ocupado essa cadeira atualmente né a digníssima senhora de quem falei acima, ela mesma, a morte.

Nossos mortos não mais são velados em nossas casas, lugar onde habitaram, se alimentaram, receberam amigos, choraram, riram, viveram. A grande maioria das pessoas que adoecem, morre em hospitais frios e impessoais. E o que fazem esses locais? Escondem o corpo do morto – muitas vezes até mesmo da família- e o preparam para um velório também frio, rápido e bem educado em algum lugar especializado. As crianças ficam proibidas de participar desse ritual tão importante de despedida de um ente querido em nome da evitação de algum possível trauma. Trauma? Talvez fosse interessante apresentar a morte a elas de uma forma mais natural, uma vez que todos seremos por ela visitados, mais dia, menos dia; dizer adeus é uma oportunidade. Cuidamos dos inícios e não cuidamos dos finais. Isso é lamentável.

Há uma linda tragédia de Eurípedes, escrita em 438 a.C., que fala de uma passagem que eu gosto muito e traz outro aspecto desse difícil tema: quando é a hora? Chama-se Alceste e conta a história de Admeto que, por intermédio de Apolo, consegue adiar sua morte. Apolo convencera as Parcas, ou Moiras (responsáveis por determinar o momento de partida de cada um) a que o mortal não morresse no dia previsto; mas adverte Admeto: para isso teria que encontrar alguém que fosse em seu lugar! Quem Admeto procurou imediatamente? Seus pais. Seu raciocínio era lógico: “viveram muitos anos, podem morrer no meu lugar para que eu possa prolongar minha vida”. Mas a vida não é lógica e Eurípedes nos presenteia com um diálogo maravilhoso entre pai e filho. O jovem não compreende que a vida é um bem intransferível. Feres, pai de Admeto lhe diz: “Nasceste, Admeto, para ser quem tu és, feliz ou infeliz. Não terás de morrer por mim, da mesma forma que não morro por ti (…) Fica certo de que se te apegas à própria vida, todos se apegam às suas!” (Tragédia Grega, vol. VI, Jorge Zahar Editor, vv.849;854;874,pp.189,190).

Esta história milenar nos conta que a morte dá sentido à vida, e cada um tem a sua vida e a sua morte. Cuidemos de ambas!

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ESCRITO POR

Sylvia Mello Silva Baptista

Formou-se em Psicologia pela PUC-SP. É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA, coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica da Clínica da SBPA. Consultório: (11)3064-1512 Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades de Desenvolvimento”, “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”, todos editados pela Editora Casa do Psicólogo. Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

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