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Sobre o Tempo e a Memória

04 Nov 2016 por Sylvia Mello Silva Baptista em Bem Estar

Vamos falar do tempo. De novo. Este é um tema que volta, como voltam as estações. O tempo é simultânea, e por vezes alternadamente, um vilão e um curador. Quando temos pressa de resolver problemas, ele custa a passar e nos traz angústia ou mesmo desespero. Quando não há mais nada a fazer ou expectar, ele se mostra sábio revelador de verdades. Ouvi no texto de uma peça de teatro: a morte demanda tempo e silêncio. Isso me pôs a pensar. Parece que cada vez fica mais contrastante a oferta e a demanda, por assim dizer. A vida demanda tempo. Quando damos tempo ao tempo?

Escutei no rádio uma definição do que seria uma nova doença: a demência digital. Este seria um problema que já estaria atingindo milhares de jovens que ficam muitas horas do dia ligados no celular e internet. Começa-se a observar que essas pessoas estão arruinando a sua capacidade cognitiva de lembrar de fatos, datas, situações, uma vez que depositam essas memórias no mundo virtual. Tudo muito acelerado. Não há tempo a perder. Em outras palavras, a geração nascida e crescida na virtualidade está “emburrecendo”. Houve um tempo em que a história era passada de geração a geração pela oralidade. Quem conta um conto, aumenta um ponto, diz o ditado. E assim o filho carregava o relato do pai para o seu filho e o filho do seu filho; os aedos, menestréis e cantadores, para todo um coletivo. Nos tempos de Homero, os versos eram cantados. Imaginem! Vemos que as sociedades que transmitem oralmente seus conhecimentos conservam secularmente suas tradições de uma forma viva e eficaz. Mas o que está ocorrendo nos dias de hoje é preocupante pois confia-se o saber a uma “nuvem”. Assim, nos desobrigamos de lembrar.

Sou de uma época em que via meus avós e tios decorando e declamando poesias. Diziam ser um treino para a memória. E era mesmo. Além de alegrar a alma de uma plateia atenta. Não quero dizer que a tecnologia da era moderna é ruim ou descartável, mas quero sim lembrar que o valor do conhecimento depende do “como” é aplicado. Para não sermos dementes virtuais precisamos decorar poesias! E aí entra o tempo de que falava acima. Parece que, mais do que nunca, se faz urgente dedicarmos tempo para ouvir, para degustar, para aguardar uma resposta, para obter mais gosto de uma comida, para colher um fruto da árvore plantada, para ler um romance longo, para contemplar um pôr de sol, para deixar a chuva passar, para chorar as perdas e tristezas. Gosto da proximidade desses saberes com os sabores que vêm da prática da culinária. Na cozinha, o coração da casa, onde as transformações do alimento acontecem, o tempo é rei. Ali aprendemos que o bolo não cresce se ficarmos olhando para o forno, o pão não assa quando temos pressa, cada legume necessita de mais ou menos minutos para cozer. Que aprendizado! Jung chamava a atenção para a “anima mundi”, e seu seguidor, James Hillman enfatizou bastante essa situação. A alma no mundo. Cada pequena criatura, mesmo as ditas inanimadas, contendo atributos a serem percebidos e respeitados.

Venho, portanto, lembrar da importância de se respeitar e honrar o deus Tempo. Vá à cozinha, prepare um alimento para você ou para alguém, “perca” tempo com isso, e se possível, decore uma poesia e a declame em voz alta. Melhor: cante! Que tal  começar com a prata da casa:

“Não me iludo,
tudo permanecerá do jeito
que tem sido,
transcorrendo,
transformando,
tempo e espaço navegando todos os sentidos…”

(Tempo rei, Gilberto Gil)
Imagem: Salvador Dali – A persistência da memória

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ESCRITO POR

Sylvia Mello Silva Baptista

Formou-se em Psicologia pela PUC-SP. É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA, coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica da Clínica da SBPA. Consultório: (11)3064-1512 Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades de Desenvolvimento”, “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”, todos editados pela Editora Casa do Psicólogo. Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

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