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Sejam Muito Bem-Vindos

28 Aug 2014 por Sergio Vaz em Filmes

O veterano Jean Becker insiste e não desiste do tema que tem abordado sempre em seus últimos filmes. Felizmente. É um tema maravilhoso, dos melhores que há: o encontro entre duas pessoas, em geral muitos díspares, quase opostas, a amizade e a solidariedade que nascem a partir daí, e muda para melhor suas vidas.

Para Jean Becker, assim como para Vinicius de Moraes, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida.

Lembrando:

Em Conversas com meu Jardineiro/Dialogue avec Mon Jardinier, de 2007, um pintor rico, famoso e em profunda crise pessoal, interpretado por Daniel Auteil, vai passar um tempo no campo, na casa em que morou na infância, e reencontra um velho conhecido dos tempos da escola básica, que agora é um jardineiro (Jean-Pierre Darroussin). O encontro de um homem da metrópole, rico, culto, infeliz, com um homem da província, um tanto bronco, simplório, de coração imenso.

Em Minhas Tardes com Margueritte/La Tête en Friche, de 2010, o encontro é entre um homem inculto, um tanto bronco, quase iletrado (interpretado por Gérard Depardieu), com uma senhora nonagenária educada, culta (Gisèle Casadesus), que já leu milhares de livros que expressam as angústias e as alegrias dos homens.

Neste Sejam Muito Bem-vindos /Bienvenue Parmi Nous, de 2012, o encontro é ainda mais estranho, improvável, insólito, do que os dos dois filmes anteriores. São duas pessoas que não têm absolutamente nada a ver uma com a outra. Um Amazonas, um Grand Canyon, milhares de anos-luz separam Taillandier (Patrick Chesnais) e Marylou (Jeanne Lambert), os protagonistas da história.

Um homem que tem tudo para estar feliz – mas naufraga na depressão

Taillandier já passou bem dos 60 anos (Patrick Chesnais estava com 65 em 2012, mas aparentava ter mais que 70). É um pintor de algum renome, assim como era o protagonista de Conversas com Meu Jardineiro, mas, diferentemente do personagem interpretado por Daniel Auteil, que vivia em Paris, Taillandier mora no campo, numa bela casa no meio do campo, veremos que na região de Poitou-Charentes, no sudoeste da França.

Tem dinheiro, conforto material e uma bela mulher que ele ama e que o ama, Alice (interpretada por Miou-Miou, a quem a passagem dos anos não fez mal). Recebe em seu aniversário a visita dos filhos e das duas netas.

Tem tudo para estar bem, vivendo uma velhice tranquila e – por que não? – feliz. Mas não. É tudo – menos feliz. Faz um ano que não consegue mais pintar, não tem interesse, gana, vontade de tocar o instrumento que os deuses lhe deram. Acordar, enfrentar cada novo dia é quase um suplício, uma tortura.

Acha tudo ruim – até a companhia da bela mulher, a visita dos filhos e das netas que provavelmente vê poucas vezes a cada ano.

É ranzinza, mal humorado, impaciente, irritadiço.

Na verdade, está em depressão – mas nem pensa em se tratar. Tem problemas de coração, como tantos velhos têm, mas sequer toma os remédios que deveria tomar.

Ao ir até a cidadezinha mais próxima pegar a porção de carne que Alice servirá para o almoço de aniversário em família, vê uma espingarda de caça – ele, que nunca caçou – e a compra.

Para quem não vê saída, uma espingarda de caça pode ser um atalho.

Uma garotinha bela, cheia de energia – mas num momento infernal da vida

Marylou tem 15 anos, é bonita, tem energia e a vida pela frente – mas a vida, no momento em que o destino faz seu caminho se cruzar com o do pintor deprimido e sem qualquer esperança, não poderia estar pior. A mãe vive com um canalha, um pequeno facínora, que tudo que deseja é comer a enteadinha adolescente. Diz para a mulher que a garota vive se oferecendo a ele, e a mãe de Marylou, crédula, apaixonada, cega, acredita nele – e expulsa a garota de casa.

Uma adolescente pouco educada, assediada pelo padrasto, enxotada pela mãe, sem ter para onde ir, sem rumo, sem nada. Um velho pintor rico materialmente e infeliz, em profunda depressão, fugindo de casa porque não suporta o dia-a-dia, não se suporta, e pensa na possibilidade de um atalho para o fim da dor no cano de uma espingarda de caça.

Não poderia haver encontro mais improvável.

Clique aqui e veja a íntegra.

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ESCRITO POR

Sergio Vaz

É jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes (www.50anosdefilmes.com.br) e 50 Anos de Textos (www.50anosdetextos.com.br).

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