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Que droga é essa?

17 Jun 2016 por Sylvia Mello Silva Baptista em Bem Estar

Se você vive numa grande cidade e tem mais de, digamos 40 anos, certamente já foi a um médico e saiu do consultório com pelo menos um papel onde estavam pedidos exames laboratoriais e de imagens; uma longa lista deles. Teve que abrir lugar na sua agenda para cumprir esse ritual e dedicou um bom par de horas para isso – quando não, um saco de dinheiro e paciência, dois ingredientes muitas vezes conhecidos só depois da prescrição.

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, um dos grandes pensadores do século XX, profundo conhecedor da psicologia humana, uma vez afirmou que os deuses viraram doenças. Esta colocação parece cada dia mais verdadeira quando observamos quantas farmácias há nas proximidades de nossas casas e quantas vão se somando a essas pela cidade. Chega a ser assustador. Prestamos mais honras ao deus “Ansiolítico”, ao deus “Antidepressivo”, ao deus “Analgésico” do que a qualquer outro das inúmeras religiões que os homens cultuam.

Se tivéssemos livrarias e lugares de convivência sendo abertos em seu lugar, não tenho dúvidas que consumiríamos menos medicamentos. Refletindo sobre esse tema e observando à nossa volta, percebo que há iniciativas em sentido contrário ao que encontramos hoje: práticas que questionam a pressa de comer, de resolver problemas, de ser bem sucedido –seja lá o que isso signifique. Mas ainda são poucas, muito poucas, ínfimas. Pequenas janelas numa imensa e escura mansão.

Lembro-me de um filme argentino encantador lançado em 2005, Elza e Fred, onde duas pessoas na faixa dos 70 a 80 anos, vizinhos, começam um relacionamento de amizade que vai se estreitando a cada encontro. O senhor tomava uma quantidade tão grande de remédios diariamente que deixava atônita a senhora, mais favorável à terapia do riso e do bem viver. Ela própria lutava contra uma doença grave, mas não fazia disso o foco de seus dias, e aos poucos convence, com seu jeito de ser, o senhor a se desfazer da imensa farmácia que consumia de modo quase inconsciente. O que ela lhe oferecia era vida, emoção, risco, atenção ao ‘aqui-agora’, alegria.

É preciso que façamos esse questionamento de como estamos cuidando de nossos corpos, de nossas mentes, de nossa pessoa, de nosso tempo. A palavra grega “pharmacon” designa tanto “veneno” quanto “remédio”. Semelhante duplicidade vemos acontecer com a palavra “droga”, aquela substância que se compra nas drogarias, não é mesmo? Onde foram parar as antigas sabedorias das plantas medicinais? O que foi feito das receitas caseiras dos emplastros, dos xaropes, dos chás? Como temos nos afastado de um conhecimento que já esteve ao nosso alcance, e que talvez ainda se preserve no meio rural,onde o contato com a natureza é inegavelmente mais próximo!

Acredito que os idosos tenham um importante papel em não deixar se perder esse saber, e é preciso que passem para seus netos o que aprenderam com seus próprios avós. A cultura oral guardou, e guarda, um poder enorme de transmissão de conhecimentos e vamos precisar deles cada dia mais nesse mundo caótico em que vivemos, e o qual também temos a responsabilidade de construir.

E, como disse o poeta Paulo Leminski:

minha mãe dizia

  • ferve, água!
  • frita, ovo!
  • pinga, pia

e tudo obedecia

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ESCRITO POR

Sylvia Mello Silva Baptista

Formou-se em Psicologia pela PUC-SP. É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA, coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica da Clínica da SBPA. Consultório: (11)3064-1512 Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades de Desenvolvimento”, “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”, todos editados pela Editora Casa do Psicólogo. Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

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