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Os dois deuses do tempo

15 Jul 2015 por Sylvia Mello Silva Baptista em Bem Estar

Não é à toa que a mitologia greco-romana expressava a ideia de tempo através de duas divindades: Cronos e Kairós. Há uma sabedoria aí. O primeiro, inspirava-se no deus Crono. Era filho de Geia e Urano, e este fazia com que Geia engolisse tudo o que paria. A mãe pediu a seu filho para castrar o pai e pôs fim a seu tormento. Assim, o céu e a terra separaram-se. No entanto, o filho Crono ficou, ele próprio temeroso de ser suplantado por seus descendentes, e por conta disso, passou a engoli-los, um a um, assim que nasciam. Reia, sua mulher, para salvar seu sexto rebento, pôs fim ao movimento de devoramento, entregando uma pedra no lugar do pequeno Zeus, que cresceria distante do perigo e formaria toda uma descendência olímpica. Mas isso é uma outra história.

O que nos interessa aqui é esta imagem de Cronos – também conhecido como Saturno – devorando seus filhos recém-nascidos. Podemos entender essa divindade como uma metáfora da passagem do tempo. É daí que vêm as palavras cronômetro, cronologia, crônico, entre outras. Crono devorava seus filhos, como o tempo cronológico nos devora a todos. Quem não tem essa vivência de modo marcante, principalmente na vida corrida dos dias atuais?

Ao lado disso temos Kairós, representando o tempo do significado. Aquilo que faz sentido para nós está no campo de Kairós. Sabe aquela sensação de que as coisas demoram a passar, ou que passam muito rápido, dependendo do que estamos vivendo? O ponteiro do relógio andou os mesmos quinze minutos, mas esperar a resposta da entrevista do emprego faz parecer horas! Ou, ficar ao lado da pessoa amada transforma aquelas horas na sensação de minutos; poucos minutos. Esse é o tempo de Kairós. Não se trata de escolhermos entre um e outro. Ambos constroem nossas vidas. Mas sabê-los nos faz mais acordados para aproveitar o que a vida nos dá e aceitar o inevitável.

Isto tudo para dizer que, se o corpo se apresenta com uma idade cronológica, não nos esqueçamos que a alma se guia por Kairós, dando pouca ou nenhuma importância à lógica do relógio. E quando falo, “alma”, refiro-me simplesmente àquilo que nos anima. Não é incomum encontrarmos pessoas cronologicamente jovens com almas idosas, bem como o inverso: pessoas de idade avançada com almas juvenis, ligadas à vida e ao movimento. Na academia de ginástica que frequento há um imã grudado no aparelho de som com os dizeres: “o corpo é o traje da alma”. Ele me lembra que há Crono e Kairós e que os dois deveriam andar de mãos dadas em nós, dando-nos a profunda experiência do sentido do tempo, do tempo com sentido, numa espécie de acordo, como diria Caetano Veloso:

Oração ao tempo
Caetano Veloso
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo tempo…

 

 

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ESCRITO POR

Sylvia Mello Silva Baptista

Formou-se em Psicologia pela PUC-SP. É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA, coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica da Clínica da SBPA. Consultório: (11)3064-1512 Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades de Desenvolvimento”, “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”, todos editados pela Editora Casa do Psicólogo. Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

Perfil do Autor
COMMENTS
  1. anaceliarsou@usp.br'

    Ana Célia

    Sylvia, adorei! Como sempre muito inspirada!
    Bj gde pr’ocê! Ana

  2. stellapgp@uol.com.br'

    Stella

    Gostei muito.é isso mesmo que vc fala,acho que a minha alma é juvenil ,pelo menos a mim parece que é .

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