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O extraordinário. O ordinário extra.

15 Dec 2014 por Breno Raigorodsky em Comida e Bebida

Do ponto de vista da elaboração, o chamado vinho do dia a dia fica alguns furos abaixo do vinho para ocasiões especiais, pois custa menos, tem menos elegância, tem menos pretensão no envelhecimento etc.

Obviamente, grandes produtores como o Antinori toscano ou o Thunevin bordalês, só para citar dois que me ocorrem de imediato, fazem vinhos para os comuns dos mortais, com os seus Santa Cristina e Bad Boy, respectivamente, a léguas de distância dos seus grandes produtos, seja na escolha do lote que vai fornecer o grande vinho – quase sempre muito exclusivo – seja no modo de colher, no tempo de descanso e afinamento, na elegância da madeira e até no cuidado com o rótulo. São grandes vinhos e – muitas vezes – os preferidos por quem faz.

Mas do ponto de vista do gosto constituído, nada nem ninguém impede dele ser o preferido de muitos.
Nessas andanças, depois que me tornei um cara focado no vinho, amiúde encontro gente que se esquiva de mim dizendo “não conheço, gosto de vinho, mas não conheço, tomo um beaujolais village por semana, sou do chianti e pra mim basta”.
Como se houvesse alguma maldição rondando o assunto “vinho”, que obriga as pessoas gostarem só daqueles que foram consagrados como grandes. É talvez o maior mal que a fama do vinho enquanto bebida diferenciada fez em meios típicos de ascensão social, onde só se pode gostar de produtos bem alcoólicos, de determinada procedência. O resto é considerado brega e ponto final.
Com isso, joga-se no lixo hectolitros de boa tradição vitivinícola, puro preconceito.
E é mesmo engraçado, já vi produtor que mostra com orgulho seus grandes vinhos premiados, mas diz – a boca pequena – que o seu vinho preferido é aquele menos cheio das nove horas.

O que me era permitido tomar regularmente quando – no século passado – morava na França, tinha um nome genial: Vin Ordinaire Supérieur! Nomeava uma aparente contradição, justapondo o que lemos como ordinário ou medíocre, alçado à condição de coisa boa.
Não era o vinho de quem fazia questão de um vinho melhor, mas muitas vezes, sentado num bistrô, lendo alguma lição – a espera de um horário melhor para enfrentar o trem de volta para casa – via mais de dezenas de homens e mulheres bem vestidos e de algum poder econômico pedir o mesmo Vin Ordinaire Supérieur que frequentava meus copos de vinho tinto (balon de rouge, para os mais íntimos à língua francesa).

Digressão à vista, muitas vezes abri mão daquele vinho que mais brilha, porque em tantas ocasiões o brilho ofusca, busca protagonismo, mesmo quando tem que dançar um pas-de-deux com um prato de igual protagonismo, um filé Chateaubriand, por exemplo, um macarrão com lascas de trufas brancas, uma pizza de queijo mozzarella cuja massa foi pincelada com um molho de tomate bem temperado.
Diante de tais acepipes é justo procurar um vinho que vá rivalizar com eles? Já disse e repito, pena dá nesses festivais de trufa branca, ver os coitados dos Barolos perdidos entre as taças dos endinheirados. Melhor ficaria o vinho menos elaborado, não é?
É reservado ao dia-a-dia o vinho saudável, que ajuda a digestão, que facilita dissolver gorduras, formar o bolo alimentar, ativar as enzimas. Aos grandes vinhos nada disso é atributo obrigatório, basta ser gostoso ao primeiro gole, descer como uma luva e pronto.

Evidentemente, a mágica do vinho, ultrapassa e joga fora estes maniqueísmos, como bem fazem os grandes da Borgonha, que são longevos, tânicos, complexos, potentes e delicados, tudo ao mesmo tempo. Mas isso é tarefa para além dos grandes vinhos, é coisa para os extraordinários, os únicos, furos bem acima dos vinhos de ocasião especial.
Como em tudo, o vinho do dia a dia não é menos, quem sabe seja até mais.

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ESCRITO POR

Breno Raigorodsky

Filósofo, estudou cinema e é especializado em vinhos.

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COMMENTS
  1. cielo.paulo@terra.com.br'

    Paulo R. Cielo

    Excelente e oportuno texto. !!
    Parafraseando uma outra observação, cito;
    O bom vinho é aquele me agrada… Não me lembro onde foi, mas é forte essa afirmativa.
    Etílicas e efusivas elevações de taças ao fechamento de mais este ano.
    Saudações.
    Cielo.

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