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O círculo da vida

28 Sep 2016 por Fernanda Vianna em Bem Estar

Quem convive com crianças pequenas sabe como é gostoso acompanhar o desabrochar das descobertas de mundo e as conquistas de autonomia. Para nós, pais, é uma satisfação enorme testemunhar as primeiras palavras, os passinhos desengonçados, a adaptação escolar, a tensão excitada do filho ao dormir fora de casa, a alegria hesitante ao pedalar sem rodinhas. O amor parece sempre transbordar do peito. Lembro de um domingo em que fui acordada com a notícia de que o café da manhã estava pronto. Minha filha ainda bem pequenina acordou mais cedo e arrumou sob o jogo americano na mesa as fatias de pão e os toddynhos. Vibrei! Nossa pequena, que até pouquíssimo tempo dependia de todo nosso cuidado, nos surpreendeu com um gesto tão cuidadoso.

Da dependência absoluta do bebê, ao poder dispor da vida de modo livre e autônomo, o processo não para… As crianças tornam-se jovens desafiados pela tarefa de escolher as amizades, a carreira, os parceiros amorosos… Os chamados adultos gozam da realização das escolhas bem sucedidas, das alegrias alcançadas, enfrentam as frustrações, as preocupações, lidam com o peso das responsabilidades e com a consciência da finitude. Em cada etapa, a existência se mostra num constante convite às descobertas, às conquistas, às possibilidades.

O desejo de vida das pessoas, associado às mudanças de hábitos e aos avanços da medicina, são ingredientes do elixir da juventude. No entanto, não temos como recusar a chegada da última etapa do caminho, a velhice. O tempo é implacável e tem uma hora em que o corpo dá sinais de cansaço, a memória começa a falhar, os músculos perdem força, o equilíbrio pode ratear. Vêm as doenças, as dores, os tremores, os mais pessimistas dizem que a velhice é a fase dos horrores.

Como uma ironia do destino, a vida parece pregar uma peça: Desde pequenas, as crianças são levadas a se separar de seus pais para trilhar um caminho próprio rumo a um futuro sempre distante, aprendem a dispor da liberdade e ganhar independência, até se tornarem autores e protagonistas de suas histórias. Mas chega um dia em que, já velhos percebem ou são informados de que o horizonte de possibilidades que sempre convocaram está restrito e já não mais conseguem gozar da autonomia conquistada. Então, como lidar com o que se aprendeu a fazer durante toda uma vida frente a decadência do corpo e a aproximação da morte?

Os limites impostos pelo processo de envelhecer, que muitas vezes é marcado pelo adoecimento, podem gerar um grande sofrimento. A perda de autonomia, as restrições, a falta de perspectivas, tornam-se um desafio para quem precisa ser cuidado e para quem cuida. Se estamos diante de alguém que não é mais capaz de realizar atividades que sempre fizeram parte de sua vida, desfrutar da leitura de um jornal, do passeio a pé pelo bairro, da conversa fiada com os amigos, não é incomum as manifestações de revolta, tristeza, desânimo. Afinal são muitos osos a serem assimilados. Também é muito comum a impotência experimentada por aqueles que acompanham esse que ainda reluta com a necessidade de ser acompanhado. Para todos, a situação é delicada, podem haver embates e um desgaste emocional intenso.

Os processos no final de vida são complexos. Quando um velho começa a virar criança é importante lembrar do esforço que os adultos precisam fazer para lidar com a teimosia das crianças que não querem dar a mão para atravessar a rua; com as crianças e jovens aprendemos a suportar toda sorte de rebeldia que nas primeiras etapas da vida têm por finalidade abrir um lugar para o sujeito no mundo. A principal diferença nesse novo cenário é que para o velho/criança, a confiança em tudo que foi conquistado ao longo de seu caminho se desestabiliza, as perdas se impõem e o que está em jogo em cada bengalada distribuída, é uma luta ferrenha para tentar sustentar ainda uma posição no mundo.

E como a vida é circular…

Quem convive com pessoas bem velhas e privadas de saúde sabe como é difícil acompanhar o murchar das possibilidades, e a rendição à dependência. Para nós, filhos, é uma dor enorme testemunhar a fragilidade de nossos heróis. Mas se foi com eles que aprendemos a importância do cuidado, quando chega a hora, o que podemos fazer é ser corajosos e oferecer nosso amor, mesmo sob os protestos das bengaladas.

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ESCRITO POR

Fernanda Vianna

Psicóloga Clinica, Membro da Associação Brasileira de Daseinsanalyse, Mestre em Psicologia da Educação pela PUC/SP.

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COMMENTS
  1. Neusaivete@yahoo.com.br'

    neusa

    Fernanda,
    senti nas suas palavras o murchar dos meus pais que já partiram, meu caminhar hoje, já com algumas restrições e o desabrochar dos meus netos. Parabéns

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