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Mudanças: os desafios do novo

11 May 2016 por Fernanda Vianna em Bem Estar

“há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma de nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares”

Fernando Pessoa

De uns tempos pra cá me vejo às voltas com o tema mudança.

Quando você decide mudar de emprego ou se aposentar, por mais que tenha certeza que seu tempo no desempenho da tarefa se esgotou, o desligamento de uma atividade profissional com a qual esteve envolvido há anos é acompanhado de muitas perguntas e um frio na barriga: – será que vou conseguir reequilibrar o orçamento, será que estou preparado para desfrutar do ócio, será que tomei a decisão certa, não via a hora desse dia chegar e porque não me sinto contente…?

E quando você quer mudar, pois não suporta mais o sofrimento vivido numa relação, as frustações associadas à determinadas escolhas que não fazem mais sentido, você conta com o apoio das pessoas para a mudança e mesmo assim não consegue sair do lugar. Nessas situações o costume de conviver com os espinhos parece encobrir as feridas produzidas por esses e a pergunta que vem é: – porque é tão dificil mudar?

Faz pouco tempo recebi a noticia que teria que mudar de casa. Bateu um desespero e de princípio paralisei diante dos pensamentos: – estou tão bem instalada, vai ser tão trabalhosos, sempre fui tão feliz aqui, para onde vou?

As situações descritas acima mostram que o pacote das mudanças são acompanhados por uma série de afetos: insegurança, dúvida, medo, saudade, desamparo, ansiedade, e por ai vai…

Podemos passar anos ensaiando uma mudança desejada, mas temida, ou sermos obrigados a mudar de uma hora pra outra; escolhidas ou impostas, concretas ou simbólicas, as mudanças nos colocam necessariamente diante do novo e também da perda daquilo que nos é familiar. Somos convocados a sair do conforto e da comodidade das situações conhecidas para enfrentar as incertezas que vem do futuro.

Não é a toa que com a ausência de garantias, para muitos as mudanças são verdadeiros desafios; mesmo assim, há momentos que não temos como recuar.

Como disse há pouco precisei encarar uma mudança bem concreta, daquelas que vira a vida de pernas para o ar, cheia de caixas, impresa especializada. Sem casa, fiquei desalojada; foi um processo até respirar aliviada!

As semanas que antecederam o dia de encaixotar tudo, visitei cuidadosamente cada armário, gaveta, canto da casa onde ao longo dos anos a família acumulou muita coisa. Estava decidida a me desfazer de tudo aquilo que considerava sem utilidade nesse momento da vida. No garimpo das coisas guardadas, encontrei e convivi intimamente com muitas lembranças e por vezes hesitei em jogar fora ou doar algo que carregava uma história especial. Como conservar o vigor daquilo que foi sem precisar guardar o brinde empoeirado, o bilhete de trem amassado, o mapa da cidade que visitei no passado?

Foi um exercício difícil, mas durante o processo percebi que as coisas acumuladas não garantem a “vida” de nossas histórias; também me dei conta que além das tralhas, muitas vezes, seguimos preservando histórias “moribundas”, que já não cabem mais nem nas gavetas abarrotadas, nem nos espaços novos que queremos ocupar. Então, conclui que para mudar, é preciso fazer despedidas, deixar pra traz o que já mora no passado, e também acreditar nas promessas do porvir. No tempo da mudança passado e futuro cobram cuidado, pois somos nossas histórias, mas também nossos sonhos.

Depois de tudo embalado chegou o dia de encher o caminhão rumo a nova casa. Todos empolgados com as novidades, uma lareira, o banheiro com banheira e até um quintal com amoreira. Foram alguns dias para colocar as coisas no lugar, convoquei familiares para a arrumação e num trabalho conjunto o espaço ganhou cara de casa.

Nos dias que seguiram à “mudança concluída”, me senti presenteada com a vitalidade que a experiência do novo oferece; no entanto as mudanças não acontecem dentro do prazo da reorganização das rotinas, da substituição de costumes, ou da troca de endereço, assim, quando a calmaria da noite ecoava no silêncio da sala, uma estranheza ainda me visitava.

Habitar o novo pede tempo, confiança para aguardar que o desconhecido se torne familiar, ai então podemos dizer que a casa nova virou um lar.

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ESCRITO POR

Fernanda Vianna

Psicóloga Clinica, Membro da Associação Brasileira de Daseinsanalyse, Mestre em Psicologia da Educação pela PUC/SP.

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