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Despedida sem Festa

23 Nov 2015 por Sylvia Mello Silva Baptista em Filmes

Fui assistir ao filme israelense “Festa de despedida” e saí bastante mobilizada. Explico. O filme começa com um senhor gemendo em um hospital, tendo suas feridas tratadas em meio a muita dor e sofrimento. Sua esposa o acompanha com dedicação e carinho, e perde a paciência com a enfermeira, dando sinais de exaustão frente a uma situação que já deve se estender há tempo suficiente. Todos que já viveram uma doença, dias de hospital, dor continuada, ausência de perspectiva de melhora, sabem o quão angustiante é essa experiência. O filme traz exatamente uma discussão que creio muito pertinente nos dias atuais: o prolongamento da vida em detrimento da qualidade da morte. Fala-se tanto em qualidade de vida. É hora de falar da qualidade da morte!

Um dos diálogos mais interessantes é da esposa e do amigo que buscam ajuda com um veterinário conhecido deles. Este explica que não terá problema algum para dar fim à vida, acreditando que estavam se referindo a um cãozinho. Aí já temos uma reflexão sobre como nós humanos abreviamos a vida, sem culpa, de nossos colegas animais ditos irracionais. O filme segue com humor e leveza para tratar de tema tão espinhoso. O trio vai buscando meios de colocar a ideia em prática até que o amigo cria uma engenhoca que poderá ser acionada pelo próprio moribundo. Este se despediria em vídeo da vida e dos entes que sobreviverão a ele.

Depois de concretizado o plano, um senhor os procura para que dessem a mesma oportunidade à sua esposa enferma. A notícia vazou, o que traz ao grupo uma série de questões éticas e humanitárias. Outra pessoa que irá por esse caminho será a esposa do amigo engenheiro que criou a máquina. O interessante é que ela era contra aquela ideia no início, classificando mesmo como um assassinato a cessação do sofrimento do amigo que motivou todo aquele movimento. Mas quando ela se percebeu vítima do mal de Alzheimer, optou por fazer o mesmo. Pôs fim à vida. É bom que se destaque que toda ação se dá tendo com pano de fundo a amizade. Esta não é a penas um detalhe, mas condição para que o gesto amoroso se concretize.

O que me parece instigante pensar a partir do filme, é o quanto estamos vivendo tempos onde ficamos vítimas da internação em hospitais cujo objetivo é lutar contra a morte. Mas e quando está na hora de morrermos? A tecnologia de ponta e os avanços da medicina nos impedem de pensar em um final mais digno. A morte se transformou, nos tempos atuais, em nosso maior inimigo. Assim como pensamos, ou como devamos pensar sobre a vida, sobre como queremos viver, temos que pensar sobre a morte. Você que me lê, já imaginou sua morte. Calma, não precisa bater na madeira, fazer o sinal da cruz e evitar chegar perto dessa ideia; a morte chegará para todos. Então, ao invés de evitarmos olhar para ela, é melhor convidá-la a sentar-se na nossa sala e conversar com ela. A indesejada visita é também quem dá sabor à nossa vida. Saber que somos seres finitos faz com que possamos saborear mais os dias que nos são ofertados, não é mesmo?

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ESCRITO POR

Sylvia Mello Silva Baptista

Formou-se em Psicologia pela PUC-SP. É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA, coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica da Clínica da SBPA. Consultório: (11)3064-1512 Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades de Desenvolvimento”, “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”, todos editados pela Editora Casa do Psicólogo. Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

Perfil do Autor
COMMENTS
  1. marinamisiara@gmail.com'

    Marina Brito

    Assunto espinhoso e texto muito bom. Resultado: quero ver o filme e também pensar sobre isso. Achamos que está longe, o que pode até ser verdade, mas uma verdade maior é a infalibilidade da morte. Poucas coisas são tão certeza. Percebi que venho ignorando a questão, como tantos de nós, que caminhamos para Ela.

    • sylvia mello

      Marina, fico feliz do texto ter despertado seu interesse pelo filme, e mais ainda, pelo assunto. Refletir sobre isso é inescapável, se queremos ter nossas vidas nas mãos. Que colha bons frutos desse mergulho. Um abraço

  2. lumorellopacheco@gmail.com'

    Luciano Morello Pacheco

    Estranho que somente faltando dois meses para completar 68 anos comecei a procurar ajuda psicológica, e então comecei a interessar-me por psicologia. Meu desejo, já externado ás minhas filhas é que eu seja internado e tomar alta dosagem de insulina rápida, e partir rodeado pelas minhas mulheres, duas filhas, três netas e o único homem que amo, meu neto.

    • sylvia mello

      Nunca é tarde para se falar o que se passa na nossa alma. Não podemos desistir de nós mesmos e de ter nossos desejos respeitados.

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