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Corpo são em mente sã, ou vice-versa

14 Sep 2015 por Sylvia Mello Silva Baptista em Bem Estar

Na Grécia antiga, as pessoas viajavam longas distâncias para chegar aos templos de seus deuses cultuados e fazer perguntas sobre o futuro. Delfos era um dos mais famosos, localizado no Parnaso, no meio de enormes montanhas de pedra. Uma jovem sacerdotisa chamada Pitonisa colocava-se sobre um banquinho de três pernas – uma trípode- e respirava vapores saídos de uma fenda na rocha, o que lhe deixava como que embriagada e apta a transmitir ao sacerdote a resposta à pergunta do consulente. Geralmente as pessoas levavam suas aflições de alma, bem como buscas de alívio de doenças físicas. Formavam-se filas enormes de gente que permanecia no local por alguns dias, pois a pergunta ao oráculo era apenas uma etapa de um processo em direção à saúde. Havia também ali um teatro e um grande ginásio a céu aberto para a prática da corrida, luta (chamada pugilato) e arremesso de pesos. Assim, o grego transmitia aos cidadãos a ideia fundamental de que a busca de uma melhor condição física e psíquica passa por diversas áreas. Ou, o corpo e a mente são uma só coisa e devem ser cuidados na mesma medida. É preciso exercitar-se, respirar o ar puro, envolver-se com as histórias contadas nas tragédias e nas comédias, emocionar-se, rir, chorar. Havia -e há ainda hoje- em Delfos as inscrições: Conhece-se a ti mesmo e Nada em demasia, orientando cada um a olhar para si, conhecer-se, observar seus excessos, cuidar das medidas em sua vida. Tudo isso fazia parte da cura. E mais: prestava-se atenção aos sonhos, onde, muitas vezes, o deus vinha, “em pessoa” ou na forma de uma serpente, indicando o que deveria ser feito para que um novo equilíbrio fosse conquistado.

Quando olho para esse cenário de idade milenar pergunto-me, o que houve com essa sabedoria antiga nos tempos acelerados e desconectados de nossas vidas nas cidades? Parece-me que perdemos a capacidade de nos olharmos com essa atenção e de considerarmos que somos mais do que um ajuntamento de órgãos que precisam de remédios específicos para cada pedacinho nosso. Uma pílula para a dor nos ossos, uma para dormir, uma para acordar, uma para a pressão, uma para o colesterol, uma para a tristeza… Algum de vocês, leitores, já foi ao médico e teve receitado “alegria”? Ou “um passeio no parque pelo menos uma vez por semana”? Ou ainda, “uma sessão de cinema ao mês”?, “Uma conversa entre avós?”. Como cuidamos de nossas dores? Levamos em conta os nossos sonhos? Aceitamos como verdadeiro aquilo que é invisível? Sinto que é fundamental que voltemos nosso olhar para esses ensinamentos que estão na base de nossa cultura. Somos como as folhas de uma grande árvore, e não podemos perder de vista que nosso alimento vem das raízes.

Deixo essas reflexões a vocês com a poesia de Adélia Prado:
(Poesia Reunida, Editora ARX, p.153)

Solar
Minha mãe cozinhava exatamente:
arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava.

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ESCRITO POR

Sylvia Mello Silva Baptista

Formou-se em Psicologia pela PUC-SP. É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA, coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica da Clínica da SBPA. Consultório: (11)3064-1512 Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades de Desenvolvimento”, “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”, todos editados pela Editora Casa do Psicólogo. Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

Perfil do Autor
COMMENTS
  1. mariabrandao.port.@hotmail.com'

    Maria das Graças Brandão

    Aos 66 anos me sinto como se tivesse 30…
    Às vezes me sinto ridícula e até culpada por levar uma vida ativa sonhando, amando, viajando…
    Tenho culpa se meu espírito se recusa envelhecer?….

    • Sylvia Mello Silva Baptista

      Não há nada de ridículo e culpável em querer viver uma vida plena. O que está doente é o coletivo que impõe limites para que sejamos “adequados”. A lei do espírito é outra. Guia-se pela alegria e leveza. Aproveite a vida! Só temos uma!

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