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“Ando devagar, porque já tive pressa…”

28 Dec 2015 por Lúcia Azevedo em Bem Estar

O título desse texto é o verso inicial da música “Tocando em Frente”, do compositor Almir Sater. Essa música tem me acompanhado ultimamente, e esse verso em especial me vem à mente, quando me pego correndo afobada atrás do tempo.

Tenho certeza de que todos conhecem essa sensação: correr atrás do tempo, que fica correndo na frente e dando voltas na gente, escapulindo entre nossos dedos…

Como é difícil esperar o tempo das coisas! Principalmente na nossa vida corrida – a página da internet está demorando uma vida para carregar o wifi deve estar lento preciso comprar um pacote mais rápido mas vai sair caro será que vou ter dinheiro no fim do mês?… (5 segundos)

A fila do supermercado não anda quanta gente na minha frente e esses meninos então com o carrinho lotado de vodca e cerveja vão demorar um tempão vou trocar de fila ah não agora tem uma senhora na minha frente tenho certeza que ela não vai acertar a senha do cartão eu não disse? (2 minutos)

E o trânsito que não anda? Já estou aqui parada há horas deve ter acontecido algum acidente caiu uma árvore alagou sei lá ou então tem alguém que não sabe dirigir.. também nessa cidade tem carro demais tem gente demais não é possivel o semáforo está quebrado?! Vou chegar atrasada ai meu Deus por que não saí antes? (40 minutos)

E agora então, que já estamos no fim do ano? No fim do ano? Como foi que esse ano passou tão rápido? Outro dia mesmo era julho, meio do ano, e agora já está no fim? O tempo está voando, passando cada vez mais depressa… (6 meses)

Pois é.. Cada vez mais corremos atrás do tempo, e ele nos escapa. Não temos paciência para esperar o tempo das coisas acontecerem, e quando nos damos conta o tempo passou e nem reparamos.

Na vida urbana, ter paciência fica mais difícil. Uma pesquisa sobre doenças mentais na população da Grande São Paulo resultou numa taxa de 30% de incidência! (http://goo.gl/qxqk5t)

Isso significa que em cada 10 pessoas, 3 apresentam algum tipo de transtorno descrito em manual de psiquiatria. E destas, a maioria (20% de toda a população) apresenta transtorno de ansiedade. Portanto, temos aqui uma incidência altíssima de gente sem paciência!

Essa pesquisa é parte de um estudo maior, realizado em megalópoles do mundo todo, sob os auspícios da Organização Mundial de Saúde. A zona metropolitana de São Paulo apresenta índices acima dos de outras grandes zonas urbanas do mundo, mas todas apresentam índices muito altos.

Na pesquisa em São Paulo, foi notada diferença significativa entre as pessoas que viveram toda a vida na zona metropolitana, com maior vulnerabilidade para os distúrbios, e as pessoas que migraram para São Paulo vindas de outros lugares.

Evidente que isso não quer dizer que é só viver em São Paulo que ficamos doentes – o transtorno tem várias dimensões: é bio-psico-social.

Mas que quer dizer que morar numa cidade como São Paulo não ajuda a ter paciência (e saúde mental), isso sim.

Nem precisava da comprovação científica e estatística.. era só olhar em volta, e observarmos a nós mesmos!

Se temos a sorte de viver um pouco junto à natureza, logo aprendemos que não adianta apressar, a jaboticaba só vai ficar madura quando for a hora. A galinha bota o ovo no tempo dela, a vaca dá leite, a verdura fica boa, a árvore cresce e dá sombra… tudo a seu tempo! Tudo tem um ritmo. Isso nos ensina paciência. E a apreciar o tempo.

O paulista que vai a uma cidade pequena, ou a outras regiões do Brasil tradicionalmente mais “calmas”, talvez no início se irrite com o sossego do povo, que demora para servir, para ir buscar as coisas, para dar o troco.. Mas se temos um pouco de sabedoria e respiramos fundo para aguentar a ansiedade, logo percebemos que podemos desacelerar e isso nos faz bem. (Ansiedade tem muito a ver com respiração – com pressa a gente não respira fundo).

Ter paciência com as pessoas, com as limitações dos outros, com as peculiaridades de cada um, com as opiniões dos outros que não coincidem com as nossas.

E para isso precisamos ter paciência conosco também. Talvez esse seja o maior aprendizado!

Acredito que uma parte da sabedoria que podemos adquirir com o passar dos anos seja uma compreensão melhor de nossos limites e peculiaridades, e do tempo e ritmo necessários para que as coisas aconteçam. E isso nos ajuda a cultivar paciência.

Sim, é preciso cultivar paciência. E para nós que vivemos em uma cidade ansiosa, mais do que nunca isso é necessário.

Por isso ando devagar, porque já tive pressa… pelo menos, tento lembrar!

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ESCRITO POR

Lúcia Azevedo

Mãe, avó, psicóloga clínica, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica e da International Association for Analytical Psychology.

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